Já que eles não vão pedir desculpa mesmo, peço eu, em nome de todos os gaúchos que ficaram envergonhados. Perdão, Gabriel, por tanto bairrismo e provincianismo. Por termos, entre nós, mentes tão tacanhas. Certas discussões que surgem por este pago, certas polêmicas que aqui se criam, se eu não as presenciasse, seria incapaz de acreditar que existam. O debate de quanto o escritor/músico/rapper receberia para participar da Feira do Livro de Bento Gonçalves se tornou mais importante do que realmente era relevante: a presença dele no evento.
Alguém que já ganhou o sério Prêmio Jabuti de Literatura, sem contar o que já produziu para a música brasileira, não é insignificante. Quando se fala em aproximar e atrair o brasileiro à leitura, a presença em um evento desses de um músico e escritor com tanta penetração entre a juventude é importantíssima. Certamente, deve valer o que cobra e os R$ 170 mil que iriam lhe pagar. Convém lembrar que o valor não cobria apenas assinar autógrafos e dar uma caminhada entre as barracas da feira, incluía também show, palestras, compras de livros do autor por parte da prefeitura, enfim, uma participação ativa de Gabriel. Mas alguns escritores gaúchos fizeram beicinho e protestaram contra o que consideraram uma "barbaridade". Ainda bem que parte do fiasco ficou amenizada com a decisão do escritor de vir para Bento assim mesmo, sem nada cobrar, mas com uma participação mais reduzida no evento. Caro, isso sim, é investir R$ 1 mil em certos nomes que se apressaram em levantar a voz para protestar contra a contratação de Gabriel, o Pensador.
Garoto Enxaqueca
quarta-feira, 25 de abril de 2012
segunda-feira, 2 de abril de 2012
A Porto Alegre que me faz feliz
Ao escutar o primeiro silvo, logo transformado em um choro agradável da recém-nascida que me fez sorrir, lembrei de tudo que aqui vivi. A descoberta, fascinado, na Escola Estadual Imperatriz Leopoldina, das letras unidas, a rabiscar as primeiras palavras. O ato inicial de minha independência, ao começar a pedalar “sem as rodinhas”, com um aflito pai a correr atrás de mim na Praça Tamandaré. A libertação tornada definitiva, anos depois, ao descer sozinho de bici a lomba da Ramiro, em direção à Cristóvão, só com o vento a tentar me segurar.
Naquele instante tão especial, recordei das festas no Veleiros. À beira do Guaíba, uma nova e envolvente forma de sentimento, a paixão, se revelava para o jovem conquistador. Voltaram à memória as caminhadas no Parcão, de mãos dadas, em domingos ensolarados, os shows no Araújo, as festas no campus. A Redenção, que deixa a cidade ainda mais bela no outono. Como estava em uma luminosa tarde na qual meus olhos encontraram os da mulher que, percebi em seguida, seria a escolhida para viver ao meu lado para sempre.
No seu despertar para o mundo, pedindo atenção, minha filha me fez amar ainda mais esta generosa e acolhedora vovó de 240 anos, onde hoje vejo a criança crescer tão feliz quanto eu. Obrigado, Porto Alegre.
Naquele instante tão especial, recordei das festas no Veleiros. À beira do Guaíba, uma nova e envolvente forma de sentimento, a paixão, se revelava para o jovem conquistador. Voltaram à memória as caminhadas no Parcão, de mãos dadas, em domingos ensolarados, os shows no Araújo, as festas no campus. A Redenção, que deixa a cidade ainda mais bela no outono. Como estava em uma luminosa tarde na qual meus olhos encontraram os da mulher que, percebi em seguida, seria a escolhida para viver ao meu lado para sempre.
No seu despertar para o mundo, pedindo atenção, minha filha me fez amar ainda mais esta generosa e acolhedora vovó de 240 anos, onde hoje vejo a criança crescer tão feliz quanto eu. Obrigado, Porto Alegre.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
O voo de Cília
Cecília adorava o açougueiro, e não era apenas pelo filet mignon que ele vendia. Apesar da contrariedade da mãe, Herta, que desejava vê-la trocar alianças com o filho do dono da joalheria, acreditava que seu coração estava reservado para Dagoberto:
- Filha, o teu futuro está ao lado do Antônio. Ele fez curso técnico em joalheria, logo, logo, vai herdar a loja do pai. É bonitão, educado, apaixonado por ti e, o mais importante, tem tudo pra te dar um futuro tranquilo e seguro - insistia Herta.
Na cidadezinha de pouco mais de 10 mil habitantes, o destino de 80% das mulheres era o mesmo: concluída a escola, ficavam morando com os pais até se casarem, geralmente com garotos da comunidade, com quem conviveram sempre, desde a infância. Por isso, se dizia que em Três Torres, depois de anos frequentando a mesma escola, se divertindo nas mesmas festinhas no Caça e Pesca, fazendo o tempo passar em bate-papos na praça central e sorvendo milhares de casquinhas na sorveteria do Zito, todos tomavam o mesmo rumo: o do tapete vermelho no longo corredor da igreja São Jorge, onde amigos se casavam com velhos conhecidos.
Cília, como era chamada, fraquejou mais de uma vez. Em duas ocasiões, mais como forma de agrado à mãe e menos por amor a Antônio, o filho do joalheiro, chegou a namorá-lo. Herta não escondeu a euforia ao ver o casal junto novamente:
- Desta vez vai dar certo, fiz uma promessa a Santo Antônio que não vai falhar - comentou com o marido Heitor, em um final de tarde, enquanto tomavam chimarrão na varanda de casa.
Heitor tirou os olhos do jornal, mirou Herta por cima dos óculos que caiam na ponta do nariz, deixou escapar um "huumm" e voltou à leitura.
Herta insistiu:
- Já estou até vendo os meus netinhos correndo aqui no pátio de casa.
Heitor soltou um suspiro e interrompeu a leitura, irritado:
- O problema é esse, Herta. Você quer este casamento para lhe fazer feliz, não fazer a felicidade da sua filha. Deixa o coração definir por ela. Assim como fez comigo. Se eu não o tivesse seguido, não estaria casado contigo, mas sim com a Cássia, a mulher do Romeu. Era isso, pelo menos, que a minha mãe queria.
Herta ficou chocada com a revelação. Como assim, a "Cássia, mulher do Romeu"?Jamais Heitor havia lhe contado isso em 30 anos de casamento. Logo a Cássia, a amiga que frequentara a casa deles todo esse tempo, a quem Herta confidenciara tantos segredos ? Por via das dúvidas, Herta considerou prudente diminuir a rotina dos encontros entre os casais. Os amigos passaram a se visitar menos e os jantares semanais se tornaram mensais, sempre com a justificativa dada por Herta de que não encontrava mais disposição para tanta festa.
Apesar da empolgação de Herta em ver Antônio como genro, Cília não sentia o mesmo entusiasmo. Ela gostava de Antônio. Aí é que estava o problema. Gostava da mesma maneira há anos, como ex-colegas que foram, vizinhos de rua e amigos que eram. Dava risadas ao lado dele. Se divertiam juntos, passeavam com a turma pela região, privilegiada por uma natureza exuberante. Com Antônio, trocou o primeiro beijo, aos 14 anos, para "experimentar a sensação e matar a a curiosidade", como descreveu mais tarde para a inseparável amiga Taís.
- Foi debaixo da pitangueira, à beira do rio. Estava uma tarde tão linda e ensolarada de primavera. Me empolguei. O beijo foi bom, mas não me fez flutuar. Ainda procuro por aquele que me faça voar - disse Cília à amiga.
Mas o local do primeiro beijo foi o mesmo que, dois anos depois, deixou uma marca invisível na face esquerda de Cília e uma cicatriz profunda em seu coração. Foi lá que acabou surpreendida por um tapa de Antônio, como reação por ela decidir que não queria mais namorá-lo.
O coração de Cília disparava mesmo, perdia o compasso como uma cuíca atravessando o samba na bateria da escola, quando ela cruzava por Dagoberto. Não foram colegas por muitos anos, já que ele estudou na escola estadual da cidade, só passando para o Colégio Franciscano a partir da oitava série. Embora se conhecessem (o açougue vendia a melhor carne de Três Torres, e era para lá que toda a cidade rumava aos sábados, para abastecer o churrasco do fim de semana), foi por meio do convívio na escola que Cília e Dagoberto se aproximaram. A ponto de Dagoberto roubar-lhe um beijo na festinha no clube, em um sábado à noite. Depois disso, misteriosamente, se distanciou. Trocavam alguns olhares rápidos, mas ele não tomava atitude. Nem ela, geminiana tímida, que já começava a imaginar:
- Aposto que ele destestou meu beijo, por isso se afastou. Também, me pegou desprevenida na festa, eu não estava preparada - pensava.
Sem esperança de conquistá-lo, Cília cedeu a uma nova investida de Antônio, que diferentemente do rival, era ousado e insistente. A esta altura, a cicatriz do coração já havia fechado e ela o perdoou. Viveram por mais oito meses a rotina de um segundo namoro, até o dia em que Cília decidiu sair do casulo, seguir o coração e procurar a felicidade.
Desta vez, precavidamente, chamou Antônio a sua casa. Na frente dos pais, comunicou que a relação entre os dois terminava naquele dia de setembro e que não haveria uma terceira chance para ambos. Nem ouviu os apelos da mãe e do namorado e saiu porta afora. Seguiu por três quadras, chorando cabisbaixa, mas disposta a procurar Dagoberto e declarar o seu amor. Nem percebeu que, na mesma calçada, ele caminhava em sua direção. Só deixou o transe e se deu conta do que acontecia quando, pela segunda vez, teve um beijo roubado pelo açougueiro. Era uma bela tarde de primavera. E Cília finalmente voou.
- Filha, o teu futuro está ao lado do Antônio. Ele fez curso técnico em joalheria, logo, logo, vai herdar a loja do pai. É bonitão, educado, apaixonado por ti e, o mais importante, tem tudo pra te dar um futuro tranquilo e seguro - insistia Herta.
Na cidadezinha de pouco mais de 10 mil habitantes, o destino de 80% das mulheres era o mesmo: concluída a escola, ficavam morando com os pais até se casarem, geralmente com garotos da comunidade, com quem conviveram sempre, desde a infância. Por isso, se dizia que em Três Torres, depois de anos frequentando a mesma escola, se divertindo nas mesmas festinhas no Caça e Pesca, fazendo o tempo passar em bate-papos na praça central e sorvendo milhares de casquinhas na sorveteria do Zito, todos tomavam o mesmo rumo: o do tapete vermelho no longo corredor da igreja São Jorge, onde amigos se casavam com velhos conhecidos.
Cília, como era chamada, fraquejou mais de uma vez. Em duas ocasiões, mais como forma de agrado à mãe e menos por amor a Antônio, o filho do joalheiro, chegou a namorá-lo. Herta não escondeu a euforia ao ver o casal junto novamente:
- Desta vez vai dar certo, fiz uma promessa a Santo Antônio que não vai falhar - comentou com o marido Heitor, em um final de tarde, enquanto tomavam chimarrão na varanda de casa.
Heitor tirou os olhos do jornal, mirou Herta por cima dos óculos que caiam na ponta do nariz, deixou escapar um "huumm" e voltou à leitura.
Herta insistiu:
- Já estou até vendo os meus netinhos correndo aqui no pátio de casa.
Heitor soltou um suspiro e interrompeu a leitura, irritado:
- O problema é esse, Herta. Você quer este casamento para lhe fazer feliz, não fazer a felicidade da sua filha. Deixa o coração definir por ela. Assim como fez comigo. Se eu não o tivesse seguido, não estaria casado contigo, mas sim com a Cássia, a mulher do Romeu. Era isso, pelo menos, que a minha mãe queria.
Herta ficou chocada com a revelação. Como assim, a "Cássia, mulher do Romeu"?Jamais Heitor havia lhe contado isso em 30 anos de casamento. Logo a Cássia, a amiga que frequentara a casa deles todo esse tempo, a quem Herta confidenciara tantos segredos ? Por via das dúvidas, Herta considerou prudente diminuir a rotina dos encontros entre os casais. Os amigos passaram a se visitar menos e os jantares semanais se tornaram mensais, sempre com a justificativa dada por Herta de que não encontrava mais disposição para tanta festa.
Apesar da empolgação de Herta em ver Antônio como genro, Cília não sentia o mesmo entusiasmo. Ela gostava de Antônio. Aí é que estava o problema. Gostava da mesma maneira há anos, como ex-colegas que foram, vizinhos de rua e amigos que eram. Dava risadas ao lado dele. Se divertiam juntos, passeavam com a turma pela região, privilegiada por uma natureza exuberante. Com Antônio, trocou o primeiro beijo, aos 14 anos, para "experimentar a sensação e matar a a curiosidade", como descreveu mais tarde para a inseparável amiga Taís.
- Foi debaixo da pitangueira, à beira do rio. Estava uma tarde tão linda e ensolarada de primavera. Me empolguei. O beijo foi bom, mas não me fez flutuar. Ainda procuro por aquele que me faça voar - disse Cília à amiga.
Mas o local do primeiro beijo foi o mesmo que, dois anos depois, deixou uma marca invisível na face esquerda de Cília e uma cicatriz profunda em seu coração. Foi lá que acabou surpreendida por um tapa de Antônio, como reação por ela decidir que não queria mais namorá-lo.
O coração de Cília disparava mesmo, perdia o compasso como uma cuíca atravessando o samba na bateria da escola, quando ela cruzava por Dagoberto. Não foram colegas por muitos anos, já que ele estudou na escola estadual da cidade, só passando para o Colégio Franciscano a partir da oitava série. Embora se conhecessem (o açougue vendia a melhor carne de Três Torres, e era para lá que toda a cidade rumava aos sábados, para abastecer o churrasco do fim de semana), foi por meio do convívio na escola que Cília e Dagoberto se aproximaram. A ponto de Dagoberto roubar-lhe um beijo na festinha no clube, em um sábado à noite. Depois disso, misteriosamente, se distanciou. Trocavam alguns olhares rápidos, mas ele não tomava atitude. Nem ela, geminiana tímida, que já começava a imaginar:
- Aposto que ele destestou meu beijo, por isso se afastou. Também, me pegou desprevenida na festa, eu não estava preparada - pensava.
Sem esperança de conquistá-lo, Cília cedeu a uma nova investida de Antônio, que diferentemente do rival, era ousado e insistente. A esta altura, a cicatriz do coração já havia fechado e ela o perdoou. Viveram por mais oito meses a rotina de um segundo namoro, até o dia em que Cília decidiu sair do casulo, seguir o coração e procurar a felicidade.
Desta vez, precavidamente, chamou Antônio a sua casa. Na frente dos pais, comunicou que a relação entre os dois terminava naquele dia de setembro e que não haveria uma terceira chance para ambos. Nem ouviu os apelos da mãe e do namorado e saiu porta afora. Seguiu por três quadras, chorando cabisbaixa, mas disposta a procurar Dagoberto e declarar o seu amor. Nem percebeu que, na mesma calçada, ele caminhava em sua direção. Só deixou o transe e se deu conta do que acontecia quando, pela segunda vez, teve um beijo roubado pelo açougueiro. Era uma bela tarde de primavera. E Cília finalmente voou.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Para quando a velhice chegar
Há verdades inevitáveis que se aproximam em minha vida e me assustam. Por isso, já passo a me armar para enfrentá-las. Dentro de uns 3 anos, iniciarei uma terapia, para que ela comece a me preparar para a velhice. Preciso estar bem mentalmente para aceitar isso, pois fisicamente, já tomei minhas precauções, procurando há dois anos uma nutricionista, que me obrigou a entrar na linha e me ajudou a perder 12 quilos. Hoje, até exercício físico eu faço, corro semanalmente e me sinto bem com meu corpo.
Dentro de uns 20 anos, talvez menos, poderei ser avô. Meu Deus, duas décadas passam voando e não estou pronto para ser avô, e provavelmente não estarei em tão pouco tempo. Eu temo a velhice. Noite dessas, um amigo bateu uma foto de mim ao lado da minha filha de 9 anos, a Manoela. Fiquei impressionado quando vi, no dia seguinte, a imagem na tela do computador. Ao lado de uma menina linda, de pele bronzeada, radiante e sorridente, estava eu, com minha falta de fotogenia, enrugado, apesar de feliz ao lado dela. Acho que vou parar de bater fotos.
Dentro de uns 20 anos, talvez menos, poderei ser avô. Meu Deus, duas décadas passam voando e não estou pronto para ser avô, e provavelmente não estarei em tão pouco tempo. Eu temo a velhice. Noite dessas, um amigo bateu uma foto de mim ao lado da minha filha de 9 anos, a Manoela. Fiquei impressionado quando vi, no dia seguinte, a imagem na tela do computador. Ao lado de uma menina linda, de pele bronzeada, radiante e sorridente, estava eu, com minha falta de fotogenia, enrugado, apesar de feliz ao lado dela. Acho que vou parar de bater fotos.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
O choro da vida
Sufocada, Francisca se debatia. Submersa, tentava reagir, movendo braços e pernas. Mas, espremida na escuridão, não conseguia se desvencilhar. Após minutos de combate intenso, começava a fraquejar. Porém, não se entregava. Não havia lutado durante tanto tempo para desistir no final. Não agora, com toda uma vida pela frente para usufruir junto aos pais que tanto a amavam.
Francisca era brava. Seu ritmo, porém, menos intenso. Vinha quase no limite da resistência física, e o ar lhe escapava. Restava entregar o destino à própria sorte.
Ao desespero de Francisca, seguiu-se um clarão e um estrondo. Com esforço, conseguiu abrir rapidamente os olhos, e percebeu que algo a tocava. Seria Deus? Agora, após tanto sofrimento, sentia frio e alívio. Duas mãos a puxaram em um golpe único de dentro do útero que a envolvia. Francisca, finalmente, pode respirar. Então, chorou. À sua volta, seus pais também. O choro da vida.
Francisca era brava. Seu ritmo, porém, menos intenso. Vinha quase no limite da resistência física, e o ar lhe escapava. Restava entregar o destino à própria sorte.
Ao desespero de Francisca, seguiu-se um clarão e um estrondo. Com esforço, conseguiu abrir rapidamente os olhos, e percebeu que algo a tocava. Seria Deus? Agora, após tanto sofrimento, sentia frio e alívio. Duas mãos a puxaram em um golpe único de dentro do útero que a envolvia. Francisca, finalmente, pode respirar. Então, chorou. À sua volta, seus pais também. O choro da vida.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
O grande BBB
Larguei o jornalismo (diário, vamos deixar bem claro) em 2006, quando deixei a redação de veículo pra entrar na assessoria de imprensa que trabalho até hoje. Mas é impressionante observar, agora acompanhando mais de fora, como fornecedor, não consumidor, como o jornalismo mudou em tão pouco tempo. É cada vez mais um grande BBB. Cada vez mais os jornalistas, que deveriam ser como juiz de futebol, que quanto mais despercebido passar, melhor, são o fato, mais importantes do que as notícias que relatam. Na TV, especialmente, e no rádio, já se via aquele narcisismo, os repórteres-estrelas, mas agora vê-se isso cada vez mais também em jornais. É fotinho de repórter ao lado do nome, nas excessivas matérias assinadas. E hoje, vendo a cobertura dos veículos sobre a morte de Bin Laden, vejo, ouço e leio muitos se vangloriando da excelência de suas equipes por se puxarem, montarem forças-tarefas e fecharem edições com a notícia da morte do cara, que entrou nas redações por volta de meia-noite. Ora, por favor, se um jornal não é capaz disso, que é a essência do jornalismo (a notícia), pode fechar, então. Poupem os seus leitores dos autolelogios por terem sido capazes de virar uma edição. Por que tamanha valorização de uma coisa tão simples?
segunda-feira, 4 de abril de 2011
O chato
Foi o tempo de me acomodar naquele ônibus que fazia a linha da PUC para ter minha atenção - ou minha audição -despertada pela conversa que vinha do banco de trás. Dois rapazes, certamente estudantes que se dirigiam à faculdade, desenrolavam um "papo-cabeça". - Temos que aproveitar as oportunidades, correr atrás de nossos sonhos, acreditar - dizia o mais falante deles. No início, fiquei um pouco impressionado de ouvir em um trivial papo de ônibus uma discussão filosófica e profunda. - Preciso viver com emoção, gosto de viver com emoção - reforçava o jovem, que emendou em seguida. - O grande problema hoje em dia é que as pessoas chegam à metade de suas vidas profissionais frustradas e desanimadas. Por isso, preciso viver com emoção - insistia ele. Aos poucos, a conversa entre os dois passageiros, quase um monólogo, foi enveredando por novos caminhos. E comecei a me inquietar com as posições do "sábio" sentado atrás de mim. - Veja os casais, por exemplo. Atualmente, as mulheres mantêm seus maridos sob rigorosa vigilância porque não confiam neles - teorizava o rapaz, sentado no banco da janela. - As mulheres buscam um marido que possua o maior número possível de características do pai delas. E vice-versa: os homens procuram uma esposa que se pareça com sua mãe. Nesse momento, me dei conta de que tudo o que eu escutava não se tratava de convicção, mas se parecia com ideias prontas retiradas de livros. Ao menos a teoria freudiana sobre a relação esposa/marido. Quase me virei para trás para dizer que discordava de quase tudo que ele falava. Afinal de contas, minha mãe é totalmente diferente da minha mulher, Simone, e não tenho muitas características do meu sogro. Logo, percebi que o homem que me pareceu tão inteligente à primeira vista, na verdade não passava de um chato. Que encerrou a obra-prima dizendo para o amigo: - Este semestre estou feliz, pude voltar a estudar e também trabalho. O problema é que tenho estudado e trabalhado demais e não estou conseguindo estudar o que realmente gostaria. Preciso planejar minha vida melhor, colocar tudo em um papel e anotar o que eu farei nos próximos anos. Aí, não me restou dúvidas: "Que tipo de pessoa planeja sua vida ano a ano anotando metas em um papel, como se fosse o planejamento de uma empresa?" Só mesmo um chato.
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